quarta-feira, 7 de agosto de 2019

O que são competências e Habilidades? Como aplicá-las?



André Almeida

"O primeiro momento para adquirir um conhecimento do qual se desconhece é tomar consciência de seu desconhecimento"

        Um dos problemas que os educadores do século XXI estão enfrentando é a constante transformação da educação. Essas mudanças muitas vezes estão relacionadas a questões tecnológicas e do mundo do trabalho. Com isso, uma frase é constantemente repetida, “tudo muda, menos a escola”. Mas a verdade é que a educação tem passado por alterações significativas em várias áreas. E um dos conceitos que tentam descrever essa nova condição do processo de ensino e aprendizagem é o de competências e habilidades

        Alguns dos problemas encontrados na categoria de competências e habilidades é que para uma parcela dos educadores ainda não está bem “claro” em que local se inicia uma e em que momento começa a outra. Diante desse contexto, não são poucos os educadores que acabam por confundir no momento de tentar definir o que são competências e o que são habilidades. É nesse contexto, que precisamos entender que se não sabemos o que essas categorias querem expressar, como vamos saber se no processo de ensino-aprendizagem nossos estudantes realmente estão aprendendo? Se entendemos o processo de aprendizagem como uma mudança de postura no aspecto “cotidiano” como saber se a escola está cumprindo seu papel se não conseguimos identificar quais são as competências e habilidades que os estudantes precisam adquirir ao longo da caminhada? É um problema muito sério quando em cursos de formação continuada as palavras competências e habilidades são utilizadas como se os trabalhadores/as em educação básica já dominassem e tivessem internalizado em suas posturas dentro e fora da sala de aula. Com medo de perguntar algo que para muitos é do senso comum[1]do campo da educação, uma parcela dos coordenadores/as, professores/as continuam sem saber identificar tais categorias.
        Em uma sociedade que cobra constantemente que o coordenador (a), professor/a precisam saber e que o não saber é uma “falta grave”, apenas alguns educadores como Paulo Freire, em sua obra Pedagogia do Oprimido, deram uma resposta “positiva” pelo fato do coordenador (a), professor(a), não ter conhecimento de um determinado conteúdo. Para Freire, ninguém sabe tudo e ninguém ignora tudo. Todos nós sabemos algo e todos nós ignoramos algo. É na relação dos estudantes com o mundo e com outros seres humanos que ele se constroem e se reconstrói. Ao mudar a natureza que esta fora de si o “homem” e a “mulher” modifica a sua própria natureza enquanto ser humano. Então, não saber o que são competências e habilidades não pode ser um obstáculo para coordenadores/as professores/as, mas a APLB-Sindicato compreende esse momento como uma possibilidade em que o não saber pode se tornar em saber. Em outras palavras, o primeiro momento para adquirir um conhecimento do qual se desconhece é tomar consciência de seu desconhecimento.

        Foi no contexto acima, que postamos no blog da APLB-Sindicato, o texto escrito por Jorge Cascardo, especialista em Neurociência e que elucida com muita propriedade as diferenças e definições entre os dois termos. Com isso, acreditamos que após a leitura do "artigo", o coordenador(a), professor(a), possa identificar se os estudantes tem ou não competências e habilidades dentro de um determinado contexto social. Esperamos  contribuir para o entendimento daquilo que compreendemos como processo de ensino aprendizagem, dessa forma o trabalhador em educação melhore ou ajude a melhorar a escola pública de nosso país. Fazendo das palavras de Malcolm – X as nossas defendemos que:


“A educação é o nosso passaporte para o futuro, pois, o amanhã pertence as pessoas que se preparam hoje” 
(Malcolm – X)    

COMPETÊNCIAS E HABILIDADES NO ENSINO: O QUE SÃO E COMO APLICÁ-LAS?

Uma preocupação relevante hoje na educação é como ensinar e como avaliar considerando as competências e habilidades. Essa questão está sendo cada vez mais discutida, em um esforço para que o processo de aprendizagem seja menos conteudista e mais focado no desenvolvimento e preparação dos alunos para os desafios do mundo atual.
Nesse sentido, a Base Nacional ComumCurricular (BNCC), consiste um exemplo da preocupação em relação ao assunto porque o documento é estruturado a partir das competências e habilidades que devem ser desenvolvidas na educação básica. Além disso, o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), também é um exemplo da relevância de se pensar em um processo pedagógico baseado em competências e habilidades. Isso porque o Exame tem como orientadora uma Matriz de Referência com descritores das competências e habilidades.

 


Normalmente, as discussões, as orientações e os estudos sobre os dois termos são pautados pela preocupação de suprir dificuldades e conhecimentos relacionados a essa Matriz. Isso é extremamente relevante, mas é necessário pensar em competências e habilidades para além dessa única orientação.
Mario Sergio Cortella responde: Qual a relação entre afetividade, vínculo e aprendizagem?
 
As definições dos dois termos já abrem diversas indagações e dúvidas, mostrando que são temas que devem ser estudados de forma contínua e constante para uma maior compreensão, para um maior esclarecimento e para a utilização concreta do desenvolvimento de competências e habilidades em todos os segmentos da educação. Uma leitura detalhada da Base revela essa preocupação.
Para auxiliar nos estudos contínuos dos temas, preparamos este artigo. Você vai ler sobre os conceitos de cada um desses termos e por que eles devem ser considerados no contexto escolar.
O QUE SÃO COMPETÊNCIAS?
O Dicionário Aurélio apresenta três definições para Competência:
1.      Faculdade concedida por lei a um funcionário, juiz ou tribunal para apreciar e julgar certos pleitos ou questões.
2.      Qualidade de quem é capaz de apreciar e resolver certo assunto, fazer determinada coisa; capacidade, habilidade, aptidão, idoneidade.
3.      Oposição, conflito, luta.
Vamos nos ater à segunda, que é pertinente à educação. Note que Competência é uma qualidade de apreciar e resolver um problema, envolvendo a sua capacidade, habilidade, aptidão e idoneidade. Indivíduos competentes, dentro das mais variadas atividades profissionais, tendem a ser bem-sucedidos.
Na sociedade atual, as competências são essenciais para que o indivíduo tenha sucesso em sua vida social e na carreira. A forma de conduzir suas relações, responsabilidades e profissão são determinadas por sua capacidade de a cada dia conviver e resolver as situações cotidianas, cujos resultados são totalmente dependentes da forma com que os seus problemas são solucionados. O mercado de trabalho necessita de pessoas capazes de:
        tomar decisões;
        liderar;
        resolver conflitos;
        utilizar conhecimentos adquiridos ao longo do processo acadêmico.
O professor Vasco Moretto, doutor em didática pela Universidade Laval de Quebec, Canadá, destaca um ponto fundamental em relação à Competência:

"Competência não se alcança, desenvolve-se. Competência é fazer bem o que nos propomos a fazer"


De maneira resumida, podemos dizer que as competências no contexto educacional dizem respeito à capacidade do aluno de mobilizar recursos visando a abordar e resolver uma situação complexa.
Simplificando bem, é o aluno saber saber ou saber conhecer.
COMPETÊNCIA VERSUS DESEMPENHO

A confusão feita entre as definições de competência e desempenho acaba gerando problemas no processo de ensino e aprendizagem.
O desempenho pode ser definido como um indicador da competência, ou seja, serve para orientar professores e gestores se os alunos estão desenvolvendo as competências. Entretanto, é importante ter em mente que desempenho fraco não é, necessariamente, sinônimo de falta de competência. Nesse caso, o desempenho fraco pode ser motivado por diferentes fatores como, por exemplo, o cansaço físico e mental do aluno no momento da avaliação e a quantidade de horas que dormiu ou deixou de dormir no dia anterior à avaliação.
Assim, para avaliar se os alunos estão desenvolvendo de fato as competências, é importante avaliar periodicamente seu desempenho e realizar as intervenções pedagógicas sempre que necessário.

O QUE SÃO HABILIDADES?

Considerando um caso bem simples sobre habilidades: um indivíduo nas séries iniciais vai aprender a ler e a escrever. Quando ele domina esse processo, podemos falar que ele apresenta as habilidades de ler e escrever. O importante é que com essas habilidades ele alcance a compreensão de um texto a partir de sua leitura. Sendo assim, caso ele domine a escrita e a leitura, mas não consiga compreender os textos, ele não será competente para esse domínio.
A partir desse exemplo e da explicação do conceito de competência no contexto educacional, podemos definir a habilidade como a aplicação prática de uma determinada competência para resolver uma situação complexa.
Simplificando bem, é o aluno saber fazer.
Veja abaixo quais são as habilidades básicas necessárias para resolver um[a] situação complexa:
        Compreender a situação complexa: Identificar variáveis endógenas e exógenas; relacionar elementos relevantes; comparar com concepções prévias; etc;
        Planejar a abordagem e solução: Visualizar possíveis métodos para solução; selecionar estratégias e recursos que serão usados;
        Executar o planejamento: Executar o planejado, com o foco no modelo pedagógico da reflexão-na-ação;
        Analisar criticamente a solução encontrada: Fazer a crítica da solução encontrada; comparar com experiências anteriores; imaginar alternativas.
COMO RELACIONAR COMPETÊNCIAS E HABILIDADES?
          Ainda segundo o professor Vasco Moretto, destaca-se que:
"As habilidades estão associadas ao saber fazer: ação física ou mental que indica a capacidade adquirida. Assim, identificar variáveis, compreender fenômenos, relacionar informações, analisar situações-problema, sintetizar, julgar, correlacionar e manipular são exemplos de habilidades.

Já as competências são um conjunto de habilidades harmonicamente desenvolvidas e que caracterizam por exemplo uma função/profissão específica: ser arquiteto, médico ou professor de química. As habilidades devem ser desenvolvidas na busca das competências"


Uma outra explicação para mostrar a relação prática entre competências e habilidades pode ser feita a partir da leitura de um gráfico. O leitor deve ter capacidade de observar as informações contidas no mesmo, que serão associadas a conhecimentos desenvolvidos ao longo do aprendizado, para que consiga ter uma compreensão que será utilizada para solução de uma situação problema. Note que há conteúdos e habilidades envolvidos, “informação e conhecimento”, para resolver o que foi proposto com competência.
Em algumas situações, existe a preocupação de que o ensino-aprendizagem por habilidades e competências possa prejudicar o desenvolvimento dos conteúdos da disciplina. Esse raciocínio não se aplica, já que a proposta é conseguir fazer com que o aluno tenha competência para aprender.
Sendo assim, é necessário que, junto com os conteúdos, sejam criadas situações para o desenvolvimento de habilidades.
É importante ressaltar que um aluno, ao desenvolver competências e habilidades seguindo orientações de um educador, vai aprender a usá-las de maneira adequada e conveniente.
Por exemplo: em uma aula de educação física o aluno vai aprender as regras de um esporte e como fazer para obedecê-las, para depois colocá-las em prática da maneira correta. Esse comportamento de ser competente (saber saber), mas também ter habilidade (saber fazer), deve ser desenvolvido em todas as áreas de conhecimento.
“APRENDER É CONSTRUIR SIGNIFICADOS. ENSINAR É OPORTUNIZAR ESTA CONSTRUÇÃO.”

Por que trabalhar por competências e habilidades na escola?
      Nós vivemos hoje na era da tecnologia e da informação. Nunca se produziu e se consumiu tanto conteúdo na história da humanidade, em todos os níveis e áreas da sociedade. Isso se deve à facilidade que temos em acessar essas informações e conteúdos, principalmente depois do surgimento e da expansão da internet.
       Nesse cenário, a escola teve que (ou deve) mudar seu posicionamento. Antes dessa revolução da informação em nossa sociedade, a escola era tida como responsável pela disseminação de conteúdos. Isso já não faz mais sentido, uma vez que os alunos têm acesso aos conteúdos independente da escola, podendo ainda, visualizá-los e consumi-los na quantidade, velocidade e momento que desejarem.
        Portanto, a escola deve focar seu trabalho em competências e habilidades para preparar o jovem para lidar com situações de seu cotidiano e ser capaz de resolver problemas reais. Essa postura demonstra ainda alinhamento com as tendências educacionais que enfatizam a importância de colocar o aluno como protagonista, sendo um agente ativo em seu processo de ensino e aprendizagem, por meio, por exemplo, de atividades educativas extraclasse.
         Além desses pontos, não podemos deixar de mencionar o fato de que as provas do ENEM e do Saeb são orientadas por Matrizes de Referências com competências e habilidades, no primeiro caso, e competências, habilidades e descritores, no segundo.
        Dessa forma, as escolas que trabalham com a proposta de ensinar os alunos a entender e solucionar os problemas a sua volta, além de formar estudantes mais preparados para lidar com os desafios da vida, estarão também preparando-os para ter um bom desempenho no ENEM.
     A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) determina as aprendizagens essenciais para a formação do aluno por meio de competências e habilidades. Entenda melhor a estrutura da BNCC baixando o infográfico abaixo:
A seguir Link para o documento da BNCC: Como o documento da BNCC é estruturado? Como cada ciclo é organizado?
 Site do MEC sobre BNCC/Link a seguir:  
1) Base Nacional Comum Curricular - BNCC
2) BNCC - Base Nacional Comum Currícular  

Quero saber mais? Click no link abaixo:
 
Curso ofertado pela revista Nova Escola sobre Competências e habilidades. link para o curso: Conhecendo as 10 competências.
 Para saber mais o site da revista Nova Escola sobre a BNCC. Link para as matérias do site: Competências Gerais

[1] Senso comum: no sentido usado no texto se refere a um conhecimento do conhecimento de todos/as de a uma determinada área de conhecimento ou campo.

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